A "ALGA CASTANHA QUE CHEIRA MAL" VAI CONTINUAR A ESTAR NAS PRAIAS PORTUGUESAS

Originária dos mares da Coreia, a Rugulopteryx okumarae é uma macroalga invasora que foi introduzida na europa através do mar mediterrâneo. Não se sabe bem como, mas sabe-se que chegou primeiro a França e não começou como uma espécie invasora. Quando apareceu na costa de Marrocos demonstrou um comportamento diferente do apresentado até então, de espécie invasora. Expandiu-se até Gibraltar e “até chegar à costa portuguesa foi um pulinho”, conta João Silva, investigador do Centro de Ciências do Mar (CCMAR). 

Já apareceu nos arquipélagos dos Açores e da Madeira e com ambos os comportamentos: nos Açores demonstra um comportamento invasor, enquanto na Madeira, não. Ainda não se sabem os fatores que justificam os diferentes tipos de comportamentos, mas sabe-se que podem apresentar “morfologias e tamanhos diferentes, consoante os habitats”. Na Madeira, por exemplo, a alga ainda “é pequena e não é motivo de preocupação”. No Algarve, a alga é invasora e espalha-se a uma grande velocidade, indo “dos 10 aos 30 metros de profundidade”, segundo o investigador.

Os banhistas têm verificado por diversas vezes uma grande concentração destas algas à beira-mar. Isto acontece porque, quando há tempestades e eventos que podem criar maior agitação marítima, as algas são arrancadas do fundo do mar e depositam-se nas praias.

Apesar de não haver previsão de quando poderá acontecer, prevê-se que esta espécie possa ocupar toda a costa ocidental portuguesa. Rui Santos, professor e investigador no CCMAR, afirma que a alga não é perigosa para o homem, mas “são incómodas, porque cheiram mal quando apodrecem”. Além disso, pode impedir banhistas de desfrutarem das praias, o que pode afetar o turismo. “Os turistas que vão dois anos [às praias] e estas estão impraticáveis, já não vão no terceiro ano”, acrescenta o professor.

Além de afetar a economia por reduzir o número de pessoas nas praias, reduz também a prática de desportos e atividades aquáticas.

O CCMAR criou uma plataforma - Algas na Praia - que permite aos banhistas colocarem informações sobre as algas que avistam (como cor, quantidade), assim como colocar fotos para uma melhor análise. Os dados recebidos servem para análise e podem contribuir para futuros estudos.

Macroalgas? Invasoras?

Macroalgas são seres aquáticos com clorofila (o pigmento que dá a cor verde às plantas e é responsável por captar luz), “que realizam fotossíntese não possuindo verdadeiras raízes ou folhas. São organismos macroscópicos, cujas dimensões podem variar de poucos milímetros até mais de 30 metros”, pode ler-se na página do IPMA. Apesar de possuírem clorofila, nem todas as macroalgas são verdes (clorófitas), existem também as vermelhas (rodófitas) e as castanhas (feófitas). A Rugulopteryx okamurae insere-se na última categoria. 

Espécies invasoras são aquelas que, quando levadas para outro habitat que não o delas conseguem sobreviver, adaptar-se e reproduzir-se até causar impacto na biodiversidade. Esta reprodução é “muito rápida e descontrolada. Além da sua velocidade de reprodução, competem com as espécies locais e substituem as espécies nativas”, afirma João Silva.

Este comportamento pode levar à “redução da abundância, diversidade, alimentação, desempenho e função de espécies nativas”, segundo a Reef Resilience Network.

Quais são os perigos?

Para o ser humano, nenhum. Pelo menos, até ao momento, não existe nenhum risco conhecido, “o que não quer dizer que não haja pessoas que possam ter alergias a algum componente”, alerta João Silva. Em termos de ingestão, é uma área em que é necessário fazer estudos para perceber de que forma esta alga pode ser aproveitada. Além da indústria alimentar, a cosmética e a farmacêutica podem utilizar este tipo de alga para tratamentos, caso se verifique que não é prejudicial para a saúde. Contribuem positivamente para a saúde e, simultaneamente, é uma forma de “controlar os efeitos de uma invasão”, dando-lhe um aproveitamento económico “ao invés de transformá-la em lixo, que é o que acontece agora”, segundo o investigador João Silva.

Para a biodiversidade marinha, a história é um bocadinho diferente. Pelos locais onde passa e apresenta um comportamento invasor tem contribuído para “grandes transformações nos ecossistemas”. É o caso de Gibraltar, cuja “flora nativa foi parcialmente substituída, a alga cobre tudo”, conta o investigador.

Pode ser, também, um “perigo” económico e ambiental. Os pescadores locais queixam-se cada vez mais de que as algas se agarram às redes de pesca e, com o peso, destroem-nas. Além de ser mais caro para os pescadores, que têm de comprar mais material e dificulta a pesca, as redes que se partem são depositadas no fundo do mar, demorando vários anos para se decompor.

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